A Ópera de Sydney é um dos edifícios mais reconhecíveis do planeta. Também é um dos casos mais estudados de obra que saiu do controle: estimada em 7 milhões de dólares australianos com quatro anos de prazo, custou 102 milhões e levou catorze. O arquiteto que a imaginou deixou o país antes da metade e nunca entrou no prédio pronto. Não é uma história de incompetência. É uma história sobre o que acontece quando o canteiro abre antes de o projeto existir.
O projeto
Em 1955, o governo de Nova Gales do Sul lançou um concurso internacional para uma casa de ópera em Bennelong Point, uma ponta de terra avançando sobre a baía de Sydney. Chegaram 233 propostas de 32 países. Em janeiro de 1957, o júri anunciou o vencedor: Jørn Utzon, arquiteto dinamarquês de 38 anos, que levou o prêmio de 5 mil libras. A proposta era um conjunto de cascas brancas, como velas, apoiadas sobre um pódio de pedra que se abre para a água.
Eram desenhos de concurso, não um projeto executivo. As cascas tinham forma, mas não tinham estrutura: ninguém sabia ainda como calculá-las nem como construí-las. No mesmo ano, o escritório de Ove Arup foi contratado como engenheiro consultor para descobrir.
O desafio
O primeiro-ministro estadual, Joseph Cahill, tinha pressa. Com 68 anos, recém-reeleito por margem apertada e temendo que a oposição enterrasse a ideia, insistiu em começar a obra em março de 1959, com o pódio em execução e a cobertura ainda indefinida. Morreu sete meses depois. A obra, agora, tinha vida própria.
O problema técnico era de verdade. As cascas originais eram superfícies livres, e a equipe de Arup não conseguia encontrar um sistema estrutural que as sustentasse a um custo aceitável. Entre 1958 e 1961 foram testados doze esquemas diferentes, sem solução. Enquanto isso, a base subia. As colunas do pódio, dimensionadas sem conhecer as cargas de um telhado que ainda não existia, tiveram de ser demolidas e refeitas. A primeira etapa terminou em fevereiro de 1963, dois anos atrasada, e praticamente na data em que o edifício inteiro deveria ter sido inaugurado: 26 de janeiro de 1963.
O orçamento inicial, de 3,5 milhões de libras (cerca de 7 milhões de dólares australianos), tinha sido estimado em 1957 sobre um desenho de concurso. Não havia projeto que o sustentasse.
Como foi vencido
A saída veio no fim de 1961, e é hoje chamada de solução esférica. Em vez de cada casca ter uma curvatura própria, todas passaram a ser recortes de uma mesma esfera de 75 metros de diâmetro. A consequência prática é enorme: com uma única curvatura, as nervuras de concreto podiam ser pré-moldadas no próprio canteiro em formas reaproveitáveis, como gomos de uma laranja, e montadas em série. Foram 2.194 peças de até 15 toneladas, revestidas por 1.056.006 azulejos suecos fixados em 4.228 painéis em chevron. O escritório de Arup chegou a usar túnel de vento para medir as cargas nas velas, prática que depois virou rotina na engenharia de edifícios.
O dinheiro veio de outro lugar. Desde novembro de 1957 o estado vendia bilhetes da Loteria da Ópera, a 5 libras cada. Foram 496 sorteios até 1986, e o público de Nova Gales do Sul acabou pagando a obra do próprio bolso, sorteio a sorteio.
A política não foi tão generosa. Em 1965, um novo governo assumiu com a promessa de conter os custos. O ministro de Obras Públicas, Davis Hughes, passou a exigir desenhos, reteve honorários de 51.626 libras e recusou os 60 mil libras que Utzon pedia para construir protótipos das vigas de madeira compensada dos interiores. Em 28 de fevereiro de 1966, Utzon enviou uma carta dizendo que estava sendo forçado a deixar o trabalho; o ministro anunciou-a como renúncia. Em abril, o arquiteto embarcou com a família para a Dinamarca. Três arquitetos australianos, liderados por Peter Hall, concluíram os interiores com mudanças profundas em relação ao que Utzon tinha imaginado.
A rainha Elizabeth II inaugurou o edifício em 20 de outubro de 1973. Em 2003, Utzon recebeu o Pritzker; em 2007, a Ópera entrou na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO como "obra-prima do gênio criador humano". Ele morreu em 2008 sem ter visitado a obra concluída.
O que levamos para as nossas obras
A Ópera de Sydney deu certo como arquitetura e deu errado como empreendimento. É a segunda parte que interessa a quem vai construir.
Projeto e orçamento fechados antes de mobilizar. Os 7 milhões de 1957 não eram um orçamento; eram um palpite sobre um desenho de concurso. Numa casa de alto padrão, o equivalente é começar a obra com projeto executivo compatibilizado e orçamento detalhado, para que o cliente saiba o custo do que vai receber, e não só o custo do que foi imaginado.
Decisões de escopo no papel custam menos do que no canteiro. As colunas do pódio foram construídas, demolidas e refeitas porque a cobertura ainda não estava definida. Resolver estrutura, instalações e acabamentos em prancheta custa horas de projeto. No canteiro, custa demolição, retrabalho e prazo.
Toda mudança precisa ter impacto conhecido. A ruptura de 1966 aconteceu porque ninguém conseguia dizer ao governo o que os interiores de Utzon iam custar e quanto tempo levariam. O cliente tem o direito de mudar de ideia durante a obra; o que ele não pode é decidir às cegas. Cada alteração deve chegar à mesa com preço e prazo, antes de ser aprovada.
Engenharia junto do arquiteto desde o primeiro traço. Arup entrou no projeto depois do concurso, e foram três anos até a estrutura e a arquitetura falarem a mesma língua. Quando o engenheiro participa da concepção, a solução esférica aparece antes das fundações, não depois.
Se você está planejando uma construção ou reforma de alto padrão e quer que o projeto e o orçamento estejam prontos antes do primeiro dia de obra, fale com a Virtù.
Fontes e leituras









